Aos Filhos do Reino

" a boa semente são os filhos do reino" Mt 13:38b

Aos Filhos do Reino

" a boa semente são os filhos do reino" Mt 13:38b

Texto Base: Mateus 8:5–13 (conforme Lucas 7:1–10)

Tema: A fé que vence barreiras e move o coração de Deus.

1. Introdução

“E, entrando Jesus em Cafarnaum, chegou junto dele um centurião, rogando-lhe…” (Mt 8:5)

Jesus havia terminado o Sermão do Monte e, ao entrar em Cafarnaum, foi procurado por um centurião romano — um oficial militar estrangeiro que, mesmo fora da aliança de Israel, demonstrou grande fé e profundo respeito pelo Senhor.

Este texto nos ensina que a verdadeira fé pode florescer até nos lugares menos esperados.

2. Quem era o Centurião

Contexto histórico

  • O centurião era o comandante de uma “centúria”, um grupo de aproximadamente 100 soldados do exército romano.
  • Ele correspondia, nas forças armadas modernas, a um capitão ou tenente, alguém com autoridade direta sobre sua tropa e responsável pela disciplina e obediência dos subordinados.
  • Era um homem treinado, disciplinado, obediente e de autoridade — respeitado tanto por seus soldados quanto por seus superiores.

Apesar da posição elevada e do poder militar, este homem não era arrogante, mas humilde e compassivo.

3. Um homem de testemunho e compaixão

“Ele ama a nossa nação e edificou-nos a sinagoga.” (Lc 7:5)

Mesmo sendo estrangeiro, o centurião amava o povo judeu e demonstrava isso com boas obras — financiando a construção da sinagoga local.

Não buscava glória, mas servir e ajudar.

Ele se preocupava até com o seu servo, que estava enfermo e paralítico — algo incomum naquela época, pois servos eram considerados descartáveis.
Sua atitude mostra empatia, humanidade e amor ao próximo.

Aplicação:

Nosso testemunho é o primeiro sermão que o mundo escuta.
A fé que maravilha a Jesus é acompanhada por obras de amor e compaixão.
Hoje, muitos valorizam bens e status, mas o cristão verdadeiro valoriza vidas.

4. Ímpio ou homem sem Deus? Uma diferença importante

Muitos dizem: “Ele era um ímpio”, mas a Bíblia não o chama assim.
Chamamos de ímpio (do hebraico rasha’, e do grego asebḗs) aquele que rejeita conscientemente a Deus, vive na maldade e zomba das coisas espirituais (cf. Salmo 1:1; Romanos 1:18).

O centurião não era ímpio; ele apenas não conhecia plenamente o Deus de Israel.
Era um homem sem aliança, mas com um coração aberto e temeroso — o tipo de pessoa que Deus procura alcançar.

Diferença resumida:

TermoSignificado BíblicoExemplo
ÍmpioAquele que despreza Deus, pratica a injustiça deliberadamente e rejeita a verdade.Faraó endurecido, ímpios de Sodoma.
Homem sem DeusAinda não conheceu plenamente a graça, mas pode ter valores morais e coração sensível.O centurião, Cornélio (Atos 10).

Por isso, não devemos rotular todos os não crentes como ímpios.

Há muitos que ainda não tiveram um encontro com Cristo, mas são campo fértil para a semente do Evangelho.

Aplicação:

Nosso papel não é julgar, mas testemunhar e amar.
Quem hoje parece “distante” pode ser o próximo a ter uma fé que maravilha o Senhor.

5. Um coração humilde diante de Deus

“Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado…” (Mt 8:8)

O centurião tinha autoridade, mas reconheceu que a santidade de Jesus era muito maior.
Ele não se achava merecedor — e essa humildade atraiu o olhar de Cristo.

Nota histórica:

Ele não disse isso porque havia “pecado em casa”, mas porque, segundo a cultura judaica, um judeu se tornaria impuro se entrasse na casa de um gentio (At 10:28).
Mesmo assim, ele expressa um respeito profundo e reverente.

Aplicação espiritual:

Como está a nossa casa espiritual?

Estamos cultivando oração, santidade e comunhão no lar?
Jesus quer habitar conosco, mas a presença d’Ele só permanece onde há reverência e pureza.

6. A fé que entende autoridade

“Porque também eu sou homem sujeito à autoridade…” (Mt 8:9)

O centurião entendeu algo que muitos judeus ainda não percebiam:
A autoridade espiritual de Cristo não depende de lugar, distância ou ritual — basta uma palavra.

Assim como ele dizia a seus soldados “Vai” e eles iam, ele sabia que a enfermidade obedeceria a Jesus.

Aplicação:

Essa é a fé madura — crer sem exigir sinais.

Crer que a Palavra de Jesus é suficiente.

Ele ainda diz:

“Vai a tua fé te salvou.” (Mc 10:52)

“Basta uma palavra…” (Mt 8:8)

Quando Jesus fala, o impossível se curva, o inferno se cala, e o milagre acontece.

7. A fé que surpreende o céu

“E maravilhou-se Jesus, e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé.” (Mt 8:10)

Jesus se maravilhou — e isso é raríssimo nas Escrituras.

Ele se admirou da fé de um estrangeiro, enquanto muitos israelitas duvidavam.

Essa fé transcendeu barreiras e foi recompensada com o milagre à distância.

Aplicação:

Deus não se limita a religiões, lugares ou tradições.

Ele busca fé genuína, mesmo que venha de quem o mundo não espera.

Você pode estar longe, mas uma palavra de fé alcança o trono da graça.

8. Conclusão e Apelo

  • O centurião nos ensina que a fé que agrada a Deus:
    1. Nasce da compaixão pelo próximo.
    2. Se expressa com humildade e reverência.
    3. Confia plenamente na autoridade da Palavra.
    4. E transforma o impossível em testemunho.

“Senhor, não sou digno… mas dize somente uma palavra, e o meu servo sarará.”

Mensagem final:

  • Não importa o status, a origem ou o passado — Deus vê o coração.
  • A fé verdadeira não precisa ver para crer, apenas crê para ver.
  • Que Jesus possa se maravilhar com a nossa fé hoje.

Referências

  • Bíblia Sagrada, Mateus 8:5–13; Lucas 7:1–10; Atos 10:1–4.
  • BARCLAY, William. Comentário Bíblico – Mateus.
  • HENDRIKSEN, William. Mateus. Editora Cultura Cristã.
  • SPURGEON, C. H. Sermões sobre a Fé.
  • STOTT, John. O Sermão do Monte.
  • Dicionário Bíblico Strong: entradas rasha’ (hebr.) e asebḗs (gr.).